Os melhores da semana de moda paulista
Há luz no fim do túnel! A direita as coleções-desastres, a esquerda as coleções-cópia, mas no meio, pinçando de dedo, há luz muito criativa e que representa muito bem o que o Brasil pode produzir de melhor:
Alexandre Herchcovitch Masculino
Alguém disse que inovação não rima com comercial? A equação equilibrada de novidade e desejo de moda apareceu, gritou e não saiu da cabeça dos fashionistas no mundo inteiro (a coleção foi resenhada por diversos sites internacionais). É sabido que a moda masculina é um mercado difícil, justamente pela lentidão com que os homens assimilam as mudanças da moda, mas foi justamente neste terreno que Alexandre provou porquê é o grande nome da moda contemporânea brasileira.
Com inspiração no filme “O sétimo selo” de Ingmer Bergman, a coleção vem soturna e dentro do vocabulário que já é próprio do estilista. As cabeças em formato de crânio e o styling de tirar o fôlego remetem a obra do cineasta e é claro, a morte.
E como ela viria no inverno de 2010? Elegantíssima, propondo calças cenouras e legging ao invés das batidas skinnys, transparências em formato de alfaiataria, cintos de duas fivelas, capas e trench-coats híbridos de um lado ajustadas de outro soltas, estampas descoladas e bem pesquisadas seguindo a idéia proposta na coleção, xadrezes másculos, releitura de kilt escocês e informação de moda de sobra em looks op-art.
Talvez o desfile mais, mais da temporada. Daqueles que vão do nosso guarda-roupa do dia-a-dia para as páginas célebres de livros de biografia ou história da moda, imortalizado.
Alexandre Herchcovitch Feminino
Novamente o preciosismo do criador cresce e aparece. O Leste Europeu do cineasta Sergei Paradjanov, russo de origem armênia - perseguido por seus filmes pouco convencionais que não se encaixavam no Realismo Socialista - aparece de forma criativa e inovadora.
O resultado foi uma coleção étnico-contemporâneo em que as múltiplas referências se juntam sem rivalidade, pesar ou ficar over, criando looks que não são folk, muito menos datados; são uma das faces do século XXI que vai se desenhando pela mão de pessoas talentosas como Herchcovitch.
O primeiro destaque fica no uso dos tecidos criando novas texturas como no cetim que fica com cara metalassada, ou nos brilhos aplicados nos xadrezes que criam um lusco-fusco na medida certa. Por outro lado o estilista foge do óbvio de revisitar formas típicas do Leste europeu e adiciona alfaiataria contemporânea nos looks criando peças que são desejo em qualquer guarda-roupa fashionista.
Amapô
No balanço do Fashion Rio já tínhamos detectado a tendência: criação no Brasil vem dos pequenos. O desfile da grife aciona palavras conhecidas do repertório fashionista: pauperismo, over anos 80 e outros tantos termos conhecidos de quem vive a moda. A diferença é que elas olham para estas referências com o olhar do novo.
O desfile é quase-quase dadaísta. Pode ser um crítica ao Luxo x Lixo, pode ser uma ironia (a moda anda tão pobre, né?), pode ser um manifesto a livre escolha, pode ser tudo isto e nada. Só não dá para passar despercebido pela moda bacana e modernosa da marca.
Presta atenção no trabalho zíper trapinho e que fica tudo no corpo, pense na releitura das sacolas plásticas beirando as originais, as sobreposições dos mendigos que vira um jogo esperto de styling, a amarração de quem mora na rua que cria peças desconstruídas deliciosas ou empresta bossa a sisudez da alfaiataria.
Maria bonita
Muita gente fica babando pela transição perfeita do Francisco Costa na Calvin Klein, em terras brasilis, nós também temos o case perfeito. Danielle Jensen assume o criativo depois da morte da criadora da marca, manem o DNA 100% e adiciona frescor, vontade de moda e desejo a moda feminina e intelectual da Maria Bonita.
Quando a nossa marca tropical-minimalista de inspira na arquitetura o tiro é certeiro. Desta vez foi a arquitetura de Lina Bo Bardi a musa inspiradora para a moda criativa, gostosa e sem nenhuma vulgaridade. Os blocos pesados de concreto são poeticamente levados para a roupa onde ganham leveza e sofisticação que só a Maria Bonita sabe fazer.
A marca nunca cai na modinha sensual (que, supostamente, é a cara mulher brasileira). A marca entende qual seu nicho de mercado e cria para mulheres que a sensualidade está no porte, na mente, no sucesso profissional, na segurança com que tocam suas vidas e seu guarda-roupa.
Cavalera – Coleção verdade
Quase 500 anos atrás o “Boca do Inferno” Gregório Mattos cantava sobre o Brasil “O que falta nesta cidade? Verdade” bem que poderíamos parafrasear a citação para a moda brasileira. As vezes não é preciso inovar, nem inventar a roda, mas achar o caminho de volta ao seu público-alvo, e este foi o maior gol da Cavalera, grife que já foi sucesso no Brasil inteiro e viu seu publico cair a cada invencionice de tema ao longo das estações.
A Galeria Ouro Fino não podia ser melhor, o momento também não - há um revival rock pelo mundo, não das velhas bandas, mas da atitude menos ensaiada, do gesto menos pousado, do estilo mais livre e independente.











































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